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O legado da TR-808

Como uma bateria eletrônica fracassada virou o batimento da música moderna.

28 faixas1h 52min3 min de leitura

A Roland TR-808 Rhythm Composer foi um fracasso comercial quando chegou ao mercado, em 1980. A 150.000 ¥ no Japão — cerca de 1.000 dólares na época — era cara para o que muita gente considerava um brinquedo de percussão artificial. A Roland produziu apenas 12.000 unidades entre 1980 e 1983 antes de encerrar a linha.

E, ainda assim, a 808 se tornou provavelmente o instrumento mais influente da história da música popular.

O som que ninguém queria

Os engenheiros da Roland queriam uma bateria eletrônica realista, para músicos de estúdio e compositores sem dinheiro para pagar um baterista. Mas os circuitos analógicos da TR-808 não soavam nada como percussão de verdade. O bumbo era fundo e retumbante demais. A caixa, seca e fina demais. Os chimbais chiavam com um crepitar inconfundivelmente eletrônico.

A Roland produziu somente 12.000 unidades da TR-808 entre 1980 e 1983. Hoje, uma máquina original é vendida entre 4.000 e 6.000 dólares.

O que a 808 tinha era caráter. Aquele bumbo impossivelmente fundo — com sua longa queda subsônica — viria a ser a base sonora do hip-hop, do electro e, depois, do trap. Ela não imitava uma bateria: inventava um vocabulário sonoro inteiro.

De Nova York para o mundo

A segunda vida da 808 começa no início dos anos 1980, quando o preço no mercado de segunda mão a colocou ao alcance das cenas emergentes do hip-hop e do electro.

Planet Rock

Afrika Bambaataa & The Soulsonic Force(1982)

Esta faixa não apenas usou a 808: provou que a máquina podia carregar um gênero inteiro nas costas. O bumbo estrondoso e os padrões nítidos de cowbell viraram a planta do electro e, mais tarde, do Miami bass.

A 808 era o som do futuro. A gente não queria uma bateria que soasse como um clube de jazz — queria uma bateria que soasse como uma nave espacial.

Afrika BambaataaEntrevista, 1983

“Sexual Healing”, de Marvin Gaye (1982), levou a 808 ao pop de massa. As primeiras produções do Run-DMC fixaram seu papel no hip-hop. Em meados dos anos 80, a máquina que ninguém queria era a máquina de que todo mundo precisava.

A 808 hoje

A influência da TR-808 não diminuiu: aumentou. O trap moderno, aberto por produtores como Lex Luger, Metro Boomin e Southside, é construído quase inteiramente sobre sons derivados da 808. Seu grave estrondoso vem em linha reta do bumbo da TR-808, afinado para baixo e distorcido.

Mercy

Kanye West ft. Big Sean, Pusha T & 2 Chainz(2012)

O sub-grave que sustenta esta faixa é DNA 808 puro — a mesma filosofia de circuito analógico, levada ao extremo pela produção moderna.

Esta playlist percorre o trajeto da 808, de curiosidade encalhada a batimento da música moderna. De Afrika Bambaataa a Travis Scott, de Marvin Gaye a Kanye West: 28 faixas que contam como uma bateria eletrônica fracassada mudou tudo.

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